
Amanhã a Taurina, mãe da mestre que minha mãe visitou lá na penha vai lá em casa, para fazer um descarrego.
Eu sei que meu vizinho se matou quando eu era bem mais nova, e que é ele que está em minha casa – procurando ajuda na casa de duas médiuns, faz todo o sentido. Mas, para a tristeza dele e a minha, ele não apareceu nos sonhos da minha mãe para pedir algum favor que solucione sua passagem para o outro lado, nem falou comigo.
Nunca cheguei a de fato vê-lo, é claro. Mas estamos desconfiadas que o espírito que eu sempre vejo quando fico no computador de madrugada com o canto de olho é ele – se não é ele, é no mínimo alguém espiando nossa casa pelo espelho que tem ali. Pedi a minha mãe que cobríssemos os espelhos – agora que sei que são portais abertos para energias boas ou ruins e para localização de alvos de feitiços, não quero deixá-los descobertos. Somente o meu espelho negro, e só quando for utilizá-lo para cristalomancia.
Me pergunto se a Ametista vai dizer algo sobre o brinquedo na garagem no qual eu vi um espírito quando tinha 3 anos de idade – sempre achei que era um sonho que minha mente infantil da época tivesse registrado como realidade, mas confirmei aos 14 anos ao falar com a minha mãe que eu de fato via um homem ao lado desse brinquedo – ela foi à igreja e pediu algo para limpar o brinquedo do espírito, e diz ela que ela chegou em casa, eu corri até ela, peguei o óleo que o pastor havia entregado para ela e passei no cavalo, dizendo: “pronto, o homem foi embora”. Ela nem havia me dito que estava com um óleo para limpar energeticamente o brinquedo.
De brincadeira, demos o nome de Shiva ao brinquedo pois ele havia criado uma comoção na família ao meu tio tentar tirá-lo de mim para dar para a filha dele. Sim, sou velha demais para brinquedo, mas era um presente do meu avô para mim, e era da *minha* infância. Tivesse ele pedido, eu daria como presente para ela. O roubo de um objeto pelo qual tenho afeição que me irritou.
Só que… ao darmos esse nome para esse brinquedo antigo meu e colocarmos na garagem… A parede na qual ele está encostando começou a de fato ser destruída pela água. O telhado de minha casa caiu, forçando-nos a morar nesse ovinho com um risco de expulsão iminente caso meu avô resolva alugar esse apartamento de novo; meu banheiro virou piscina olímpica; tanto mofo acabou causando problemas respiratórios em mim e em minha mãe.
O brinquedo de fato virou Shiva – destruindo os obstáculos através da água… Só que ele está considerando minha casa o obstáculo.
Fico curiosa se ela vai dizer algo sobre ele – espero que minha intuição se prove certa e que possamos de fato limpar a casa e consertá-la. É meu lar, meu coração, meu pedacinho de céu no meio do caos que é São Paulo. Espero que minhas energias sejam o suficiente para me sustentar espiritualmente em relação ao culto à Deusa enquanto não posso ter acesso ao meu jardim, meu quintal, e meu altar de fato.
Que seja abençoado.

